APOIO
quinta-feira, 30 de novembro de 2017
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“O poema não é feito das letras que eu espeto como pregos, mas do branco que fica no papel”. O discurso do poeta francês Paul Claudel define com precisão o Miami White Hotel, projeto do Studio Guilherme Torres para a primeira edição da franquia CASACOR no sul dos Estados Unidos. “A ideia era construir o vazio e não o preenchido”, diz Guilherme sobre o espaço de aspecto aparentemente simples e asséptico, extremamente purista. A suíte do 43º andar, tão típica dos edifícios que brotam na região de Brickell, vai se revelando à medida em que o visitante interage com o espaço, de rigor técnico estratégico e alto efeito emocional.

Ao idealizar o ambiente, a primeira e mais intransponível das adversidades seria, pelas normas do edifício, não poder realizar ali uma única adaptação sequer, fosse remoção de paredes ou mesmo a substituição dos acabamentos despadronizados. Para compensar enquadramentos assimétricos, portas fora de escala e afins, os arquitetos recorreram às soluções cênicas de modo a redesenhar sua própria geografia de interiores. O perímetro foi totalmente reconfigurado, ora por meio de imensas cortinas que encapsulam as paredes, ora por uma segunda pele de treliças móveis com grandes aberturas geométricas.

A circulação também se dá de forma nada ortodoxa, sem obstáculos, com os próprios móveis delineando caminhos, sem nada encostado nas paredes. Entre mesas, bancos e apoios, mais de duas toneladas de mobiliário cruzaram o Atlântico especialmente para o evento – tudo com o selo NOS Furniture, marca da qual Torres é diretor criativo e que, portanto, acentua ainda mais a qualidade altamente autoral do projeto. Como elemento central, uma enorme cama ganhou ares de móvel híbrido com prolongamentos e encostos componíveis para situações de dormir, repousar, sentar, trabalhar ou fazer uma refeição – com a mesa anexa, por exemplo.

“Não defendo o discurso do branco – ainda mais num destino quente, tropical – e nem de qualquer outro matiz especificamente. Nunca associei nosso trabalho à zona de conforto do ‘color blocking’. Aqui a narrativa faz sentido para destacar a volumetria. Tratamos o branco como um estudo das massas arquitetônicas, da forma, do volume, sem entregar uma plástica totalmente pronta. A ideia é que as pessoas enxerguem as linhas que compõem nosso processo criativo”. Um ensaio sobre o preenchimento, uma valorização do vazio, como reza a métrica da melhor arquitetura contemporânea.