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segunda-feira, 28 de agosto de 2017
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Em setembro do ano passado, assim que foi anunciada como curadora de Frestas — Trienal de Artes do Sesc Sorocaba, a crítica de arte e curadora independente Daniela Labra antecipava ao Mais Cruzeiro que o vetor da exposição apontaria para as ambiguidades da arte contemporânea, “porque uma produção artística não responde a regras e não existe certo ou errado”.
Interessada em pensar nos espaços, ou frestas, entre os diferentes discursos da arte, dos acontecimentos e das pós-verdade, Daniela revelava que as ambiguidades se traduziriam inclusive em arte que não tem matéria.
É o caso do trabalho do artista visual Rafael RG, cuja a materialidade da obra se deu no seminário intitulado Ano Passado eu morri, mas esse ano eu não morro, apresentado na noite da última terça-feira (22). O evento/obra foi pensado durante a residência artística de Rafael em Sorocaba, iniciada em 25 de julho. A partir das experiências e impressões acumuladas durante quase um mês na cidade, o artista, natural de Guarulhos e radicado em Belo Horizonte (MG), redigiu um texto poético que foi lido para o público inscrito. “Escrevi tudo baseado nas redes de afeto que eu criei na cidade nesse período”, conta o artista.
Em seguida, o seminário recebeu a atriz baiana radicada em Sorocaba Linda Duares, convidada por Rafael, que fez um depoimento emocionado, relatando experiências pessoais relacionadas à migração, preconceito, racismo e a arte como ofício. “A gente falou de vários assuntos, mas o tema principal foi a resistência. A resistência de fazer o que a gente acredita”, complementa RG.
Rafael detalha que chegou à Linda através da rede de afetos construída em sua estada na cidade, dispensando processos convocatórios burocráticos. “Eu queria uma mulher negra, mais velha e que tivesse uma relação histórica com a cidade, mas o mais importante era amar ser artista. E ela foi a pessoa certa”, diz.

Graduada em Arte-Educação, Linda Duares admite que a princípio não entendeu bem a proposta de Rafael, mas rapidamente as ideias foram se conectando até soarem complementares durante as falas do seminário. “No começo eu não entendi bem o que ele queria, mas eu não queria decepcionar. O convite foi um presente dos deuses e nos entendemos muito bem. Só estou triste porque vai embora”, afirma a artista.
Segundo Rafael RG, uma das premissas da obra, criada especialmente para o Frestas, é que o seminário jamais seja reapresentado. Dentre o pequeno grupo de cerca de 20 pessoas que puderam testemunhar a atividade estava o estudante de Arquitetura mediador cultural de Frestas, José Francisco. “O que me impressionou foi toda a resistência e perseverança da Linda, que falou das adversidades com leveza, sem se vitimizar”, disse. “E teve o olhar aguçado do Rafael, que percebeu coisas da cidade que a gente que mora aqui muitas vezes não vê”, afirmou.

Baseado nas experiências vivenciadas na cidade nas últimas semanas, o texto de Rafael RG escrito especialmente para o seminário deverá ser publicado na íntegra em novembro, no catálogo da 2ª edição de Frestas. Segundo ele, a obra foi desenvolvida com base nas “redes de afeto” construídas neste período e também em marcos da história da cidade como João de Camargo e o episódio que ficou conhecido como Noite do Beijo. “Mais do que um território de contradições, eu percebi que Sorocaba é um tabuleiro de um jogo aberto. É conservador, mas tem espaços de escuta e de troca. Não existe um muro, e sim uma grade, que você consegue ver o outro lado e até desfazê-la por meio da negociação e da conversa”, afirma o artista, cujo os dreads e unhas das mãos e dos pé pintadas suscitavam estranhamentos em alguns espaços que frequentava.
Segundo RG, o seminário informal, cujo o título foi extraído da canção Sujeito de sorte, de Belchior, foi uma espécie de injeção de ânimo para prosseguir na luta e resistência pelas liberdades individuais frente à onda conservadora crescente no Brasil e no mundo. “Eu digo [no texto] que acordei mal com as coisas que passavam na minha timeline [das redes socias], com as notícias do jogo político que são disseminadas para destruir as subjetividades e retirar a nossa força de se levantar e fazer algo. Pode até ser utópico, mas não podemos desanimar e perder a vontade de querer mudar as coisas. Um outro mundo é possível”, conclui.