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segunda-feira, 17 de julho de 2017
Dorian_Taterka

Hoje aqui em Montevidéu encontrei esse link: Era 1994 e uma das poucas entrevistas do Dodi. Na hora bateu saudades da São Gualter, 766, mas a alegria de ter pegado o finalzinho de uma “era” na publicidade brasileira foi gigante. E resolvi compartilhar a entrevista publicada pela Folha. Vale a pena a Leitura:

NELSON BLECHER (FOLHA 10/01/1994)
DA REPORTAGEM LOCAL

É difícil enquadrar Dorian “Dodi” Taterka, 42, no figurino de um cineasta de publicidade. Ele não faz parte da revoada que em junho viaja a Cannes (sul da França) para caçar leões no Festival Internacional do Filme Publicitário. Pede ao repórter o rolo da última premiação, que a esta altura a maioria dos colegas já viu e arquivou.
“Por acaso dentistas fazem concurso de pivô de ouro?”, pergunta, para justificar porque não inscreve suas produções em festival algum. Detesta dar entrevista, enquanto muitos no setor quase imploram por uma.
Além da invejável coleção de livros de arte e cinema que cerca seu escritório na produtora TVC, na zona sul de São Paulo, Taterka tem colecionado desafetos em alguns departamentos de criação de agências, onde ganhou fama de encrenqueiro. Por fim, nem cineasta ela se considera: “Sou um comunicador. Cinema, para mim, é só uma ferramenta de trabalho.”
Indague, porém, sobre Taterka, ao pessoal do McDonald’s, que investiu US$ 15 milhões em publicidade no ano passado. “Ele é excelente, tem nos ajudado muito”, derrama-se Greg Ryan, o presidente da rede em São Paulo. “Muitos de seus filmes superam o padrão internacional”, acrescenta Tania Kulb, gerente de marketing, que a cada trimestre “exporta” para o mundo os comerciais produzidos no Brasil.
É uma competição renhida. Só nos EUA a cadeia de fast food produz em média um filme por dia a cada ano. Desde que se instalou no país, 14 anos atrás, o McDonald’s já se divorciou de quatro grandes agências, mas mantém casamento firme desde 1987 com a TVC de “Dodi”, que já rodou 90 comerciais para a rede e foi por ela estimulado a decolar na carreira de dono de agência, associado a Eduardo Fischer na recém-fundada Taterka, FJ.
“Espero que ele se torne um publicitário tão competente quanto produz seus filmes”, alfineta Paulo Ghirotti, diretor de criação da DPZ, a agência que anteriormente detinha a conta do McDonald’s na região Sul.
A TVC produz, além de filmes, álbuns culinários para a Nestlé. Também faz decoração de lojas do McDonald’s. Tem uma lista curta de grandes anunciantes. “Não adianta ter muitos, o trabalho não sai direito”, diz Taterka, que tem dois braços direitos: o diretor Ricardo Carvalho, que veio da RBS e Celina de Castro Pereira, ex-McCann-Erickson, que se tornou a faz-tudo na TVC. “Trabalhamos umas 15 horas por dia”, diz Carvalho, fascinado pelo desafio de tentar sempre soluções inovadoras para filmes manjados. “Aqui não vale carta na manga”, afiança.
Se durante um “briefing”, a reunião na qual se levantam idéias que darão sustentação à campanha, tentam lhe impor um roteiro envelhecido ou em desacordo com os “valores corporativos” da marca, Taterka parte para a briga. As vezes isso é tido como estorvo para o ritmo industrial da agência, daí os conflitos.
“Ocorre que um filme só tem um cliente, que não é o anunciante, nem o criador. É o produto”, afirma. Para editar o comercial do McDonald’s que está no ar, foi filmada hora e meia de hambúrguer sendo frito na chapa.
O rigor com a produção é necessário, diz, porque após a quinta exibição de um comercial até o telespectador mais distraído começa a reparar em cortinas e outros detalhes.
“Dodi” diz que a TVC rema contra a maré da terceirização que, segundo ele, “inflaciona” custos e compromete a qualidade. A produtora emprega cem funcionários e mantém uma equipe própria de carpintaria para construir seus cenários.
Em 1993, a produtora rodou 20 filmes e faturou US$ 6 milhões. Acaba de completar investimento de US$ 1 milhão em novos equipamentos. Entre eles, o software Avid, que possibilita a edição eletrônica de imagens. “Não é para montar mais rápido, é porque dá mais opções”, diz “Dodi”, o artesão.

Link original: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/1994/1/10/dinheiro/15.html